terça-feira, 12 de maio de 2009

NAS LAGOAS

Colho uma giesta rubra à hora do jantar e dou a mão ao pintassilgo assustado.
Nunca encosto a quilha das memórias num adro atrevido.
O musgo do teu rosto é macio como a verdade, sendo tão áspero como a verdade.
Mas é sobre o musgo que florescem malmequeres elegantes ou pampilos toscos e saloios. Não importa a cor do alecrim quando um perfume silvestre nos invade.
Não procuro a madressilva entre o pinheiral: a resina do teu gesto assusta o desacautelado peregrino.
Havemos de subir o assalto das dúvidas até ao ninho das águas, porque só nas águas nascem nascituros intentos quando tudo é transparente.
Transparente é o ar que não tem senão perfumes.
As imagens não existem porque são sombras e não substâncias.
Todavia, é das sombras que nascem os fantasmas cujo volume nunca saberemos definir. Dentro do volume é um ruído de formas que coramos ao sol da imaginação.
Deixemos que os amieiros e as bétulas se distingam ou se confundam.
Deixemos as suspeitas de um prado de canabis onde se perdem as rolas e as rãs. Deixemos um chão com saudades dum rio.
Deixemos que o vento assuste os salgueiros entre os melros.
Quanto mais prefiro este pântano alagado de antigas lagoas onde o rumor se esquiva como enguia ao burburinho inseguro da incerta cidade.
Não há rosas, não, nesta tarde.
As flores nunca acordam pela tarde.
Agora é a hora dos lagartos inquietos à procura da respiração.
Tal como eu.
De tanto respirar o esplendor dos fetos e dos cheiros procuro o mais fundo do peito para lavar.

Amanhã teremos amoras para o jantar.
Destas que aqui esperam pela adulta madureza numa pose de esperança.
A esperança é afoita, enérgica, mas nunca atrevida porque sempre muito tão cautelosa como o gaio antigo de que hoje muito raramente ouvimos o voo azul.
A esperança é suave como seiva doce, como cetim de canela, como seda de mel.
Gostava de morar na esperança.
A esperança é o sítio do desejo tanto como o sol é a casa do poema.
Por entre as esperanças nos perdemos.
A esperança é um feno do meu campestre de outrora, duma seara crescida, duma savana dourada na África doida de mistérios.
Ai, como gosto de semear mistérios!
Lavro os silêncios pelas horas impróprias e sobre os silêncios estendo um manto.
É o convite para um sono ocasional ou para fazer de sono no átrio dos sonhos onde germinam os mistérios.
Andemos.
Andando encontramos árvores eufóricas.
Dormem de pé.
E crescem enquanto dormem.
Ou será que dormem enquanto crescem?
Tu poderias investigar por entre as palavras abundantes e sábias que explicam até os mistérios da nocturna aragem africana.
Eu?...Espreito a raiz da loucura...
Ali no tapete da relva brava onde se escondem os miosótis.
A tarde cresce e a noite vem.
Depois do silêncio é um coaxar de amores e desamores, de ternuras e ofensas, de intenções e frustrações.
O mundo é das rãs e do pio manso das corujas.
A noite cresce pelo pântano como se África desaguasse aqui tão perto.
Ficam-me, num escaninho guardadas, as violetas brancas...

Sem comentários:

Enviar um comentário