sábado, 30 de maio de 2009

PONTO FINAL

Hoje corri veredas e prados
Nas veredas colhi morangos que desenham corações
E nos prados, muito verdes, catei memórias de menino
E dessas memórias fiz uma trança loira
Para tu usares nas festa das papoilas
Que é das flores mais belas e menos duradoiras.
Depois, até vais esquecer que no sonho da madrugada,
A chuva era dourada
E escreveu, na turbulência matinal,
O desenho triste dum ponto final.

AMANHÃ

Amanhã, quando o amanhecer for suave e puro,
e tão mimoso como um pêssego maduro,
irei dizer de ti uma raiz de mistério.
Amanhã, sempre há-de ser amanhã, o rosmaninho
vai acordar o teu sonho, de mansinho,
e levar-te até à estrela que nova inventei para ti.
Amanhã, a estrela nova, que tem de ser azul,
vai morar contigo no infinito do sul.
Amanhã, fora dos tempos,
virão desaguar no teu gesto, como num templo,
as músicas e os poemas pressentidos
que nascem dos abraços virtuais.
Amanhã, no jardim das tílias,
entre a cor dos vidoeiros e das heras
Vou acender o perfume da perpétua Primavera.
Amanhã, é o amanhã que nunca esquecerei,
por ser um eterno e definitivo amanhã...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

UM DESTINO

É muito bom o calor aqui ao pé do mar.

Mas o mar é um deserto azul de água e violência
Num marulhar contínuo e monótono de ondas turbulentas
Que desenham o furor de adolescência...
..
.
Agora, quero um por do sol doce e suave
E fofo como aventurada ave...

Canso-me da desumanidade das águas
E da rotina da música que não inventa um um violino
Para me falar de ti como destino.

terça-feira, 12 de maio de 2009

SEMPRE O SETEMBRO POR SER FÉRTIL

Um rio desaguava lentamente. E era Setembro.
Um Setembro 5, mágico e carregado de flores.
E de todos os frutos que a mãe natureza
coloca no balaio das oferendas para os meus amores
Entretanto, eu mal me lembro,
navegámos desencontradas contingências de muitos Invernos, toscos e tontos na busca dum aconchego cor da música
duma papoila breve onde sempre queríamos plantar tesouros.
Mas não eram estações propícias e pródigas.
Eram simples apeadeiros.
Murchos, agrestes e de fraca dimensão,
Onde de passagem colhemos amoras
Que não havia campo nem clima para confortáveis demoras.

Até que de novo encontramos Setembro.
Agora, um Setembro sem datas para ser eterno....

PARADEPOIS DE MIM.

Sinto que me cortaram todas as raízes antes de ser árvore
E foi contra a natureza que os deuses conspiraram com os homens
Que cresci até ao fruto.
E do fruto fiz semente e depois outra vez fruto e mais semente..
Agora, quando o tempo arrefecer estes ardores
Da seiva ainda jovem
Já posso despedir-me
E procurar no centro da terra o sítio donde crescem os vapores.

UM SOL COM PENAS DE PAVÃO

Os lábios do sol têm brilho
E na boca do sol acordam as manhãs
E porque o sol é um amigão
Vou pedir à tia Petronilha
Que me dê as penas do pavão
Que eu vou mandar nu Os lábios do sol têm brilho
E na boca do sol acordam as manhãs
E porque o sol é um amigão
Vou pedir à tia Petronilha
Que me dê as penas do pavão
Que eu vou mandar num foguetão
Para o sol colorir mais muito as nossas manhãs

E nas manhãs alegres e coloridas
O vento vem fazer festinhas às árvores
E põe as flores a dançar uma dança curtida…

É o carnaval das flores


Sobre um tema da turma X

DISCURSO INCONGRUENTE E COLORIDO

Nem imaginamos que as cores nos contam as pregas da história.
Sabemos que as cores pura e simplesmente designam.
E designam por que são designantes... como se fossem etiquetas.
Há encarnados, azuis, costa verde, costa de prata
Mas nunca as pessoas procuram entrar dentro das cores
para que o rosmaninho não seja somente um perfume teórico,
ou a madressilva uma referência rústica e severa.
Gostava de ser insecto, bicho de conta ou lagartixa para pressentir as cores duma forma tão simples quanto espontaneamente natural.
É que as cores saem da natureza. É assim que me parece. Cor de mel, cor de vinho, cor de terra, cor de céu, cor de sangue. E quem diz que a água não tem cor é porque nunca viu água em quantidade bastante para lhe a profunda cor.
Repudio a cor como nomenclatura...
Aliás, sempre as nomenclaturas são um autoritarismo de associações.
São desatinos prefigurados pelos dogmas que escorrem do Tibete pelo Nepal
E vêm pela rota da seda até Jerusalém e até Meca para se diluirem de amarelo na santa vaticana romana.
Estamos longe de entender que o tempo do homem colector não era verde, Era da cor de árvores e de frutos...
A idade da pedra deve ter sido cinzenta
Da idade do ferro para cá o que domina é a cor da ferrugem.
Também não suporto a cor de areia. Que além de ser a cor do deserto entra pelos interstícios que vão dos sovacos ao umbigo e aos orquídios descansos.

NAVEGAR, NAVEGAR

Levo-te no dorso das águas onde não há maré nem marinheiros.
Tudo será um acaso, uma esperança, um bafo de luz, uma aventura,
Levo-te, perdido de nortes e sentidos
Que eu nem sei se é noite, se dia, se lua cheia.
E que me importam os rumos, os gestos, os limites?
Levo-te numa loucura menina
À espera duma surpresa repentina
Que nos torne indistintos e tão presentes como ausentes.
Deixa-me invadir a floresta à procura do incerto momento de me perder
Quando o sol desaparecer.
Deixa-me embarcar na caravela antiga que simplesmente não tinha destinos
E só procurava a descoberta, os desatinos.
Eu nasci num raio de luar. Era Setembro. Um Setembro virgem e farto.
Faço da vida uma fartura, um acaso, um barco sem remos e sem mastro,
E nunca penso o que pensam; só penso o que sinto.
E penso com lágrimas e riso
Como menino com muita ternura e pouco siso.
Deixem-me ser louco para ter o tamanho da giesta que cresce
No espaço agreste
Sem querer bênçãos e favores
Deixem-me ouvir as músicas lavadas
Das levadas
Da minha infância perdida e nunca achada
Da minha infância, que até meus fins, será sempre desejada.
Eu sinto um vulcão a explodir
Sinto um terramoto que há-de vir
É que eu nasci sem mãe e nunca fui um feto
(Será por isso que sinto tanto um défice de afecto?)
Amanhã o sol nasce ainda que chova, ou vente, ou tudo seja azul e transparente.
O sol vai para além de tudo o que fica na condição do tempo
Eu sou o sol. O que se vê é a nuvem, o raio, a penumbra.
Eu estou além.
Na banda que fica onde não há ninguém
E onde sempre tenho um banquete para alguém.

AI OS ANOS

Hoje é o dia da festa para cantar idade
Um dia leviano de prendas e de beijos
Porque os anos não são uma fatalidade
São antes um tempo novo para novos desejos.
Cada ano é um ramo e cada ramo uma promessa de flores
E de frutos
E quando há frutos, há novos vigores
Há vida a engravidar de minuto a minuto.

Porém a idade põe o futuro muito tão perto
Que o futuro até nos vai ultrapassar, de certo...

Mas deixemos o tempo nas lembranças rituais
E vamos olhar o mar
Olhemos o horizonte deste cais
Que neste ponto do norte a olhar o sul
É urgente aprender a colorir
O que está para vir
De cor azul....

TEMPERANDO OS DIAS.

Gosto de cultivar as memórias num campo azul
Mas num azul menos inquieto que o mar
E menos profundo que o azul dum Maio florido.


Escrevo uma memória que ainda só germina
Muito suavemente, ao som duma ocarina,
Envolta e debruada num mágico tecido
A que eu, se não fora ateu, dava um altar.
E o que é bom e salutar
É nunca sabermos nada de destinos...

Porque não é pelos destinos que abrimos as memórias
O que sabemos e sofremos são fúrias de surpresas
São fascínios sem rumo e sem histórias
São encantos, são um pico de estranhezas...

Depois, é um devaneio, um canto e uma espera
Até que chegue a Primavera
Ou uma estrela cadente me dê ao sol
A cor azul

SÒ PODIA SER SETEMBRO

Era um dia de pastores que entravam pela primavera
Silenciosamente
Enquanto pasciam os gados
Onde tudo era natural
Tão natural e tão livre como o verde do prado era
Como todo o ano é o voar tonto do pardal
Ou como são as andorinhas da anunciação

Páscoa é uma entrada colectiva
Numa quinta florida

Páscoa é lembrança, é livro, é abraço, é sinfonia afectiva
Páscoa é o templo da palavra amiga
É canto lírico, e fúria de beijo proibido
É sempre cada dia de amanhã carregado de alegria....

NAS LAGOAS

Colho uma giesta rubra à hora do jantar e dou a mão ao pintassilgo assustado.
Nunca encosto a quilha das memórias num adro atrevido.
O musgo do teu rosto é macio como a verdade, sendo tão áspero como a verdade.
Mas é sobre o musgo que florescem malmequeres elegantes ou pampilos toscos e saloios. Não importa a cor do alecrim quando um perfume silvestre nos invade.
Não procuro a madressilva entre o pinheiral: a resina do teu gesto assusta o desacautelado peregrino.
Havemos de subir o assalto das dúvidas até ao ninho das águas, porque só nas águas nascem nascituros intentos quando tudo é transparente.
Transparente é o ar que não tem senão perfumes.
As imagens não existem porque são sombras e não substâncias.
Todavia, é das sombras que nascem os fantasmas cujo volume nunca saberemos definir. Dentro do volume é um ruído de formas que coramos ao sol da imaginação.
Deixemos que os amieiros e as bétulas se distingam ou se confundam.
Deixemos as suspeitas de um prado de canabis onde se perdem as rolas e as rãs. Deixemos um chão com saudades dum rio.
Deixemos que o vento assuste os salgueiros entre os melros.
Quanto mais prefiro este pântano alagado de antigas lagoas onde o rumor se esquiva como enguia ao burburinho inseguro da incerta cidade.
Não há rosas, não, nesta tarde.
As flores nunca acordam pela tarde.
Agora é a hora dos lagartos inquietos à procura da respiração.
Tal como eu.
De tanto respirar o esplendor dos fetos e dos cheiros procuro o mais fundo do peito para lavar.

Amanhã teremos amoras para o jantar.
Destas que aqui esperam pela adulta madureza numa pose de esperança.
A esperança é afoita, enérgica, mas nunca atrevida porque sempre muito tão cautelosa como o gaio antigo de que hoje muito raramente ouvimos o voo azul.
A esperança é suave como seiva doce, como cetim de canela, como seda de mel.
Gostava de morar na esperança.
A esperança é o sítio do desejo tanto como o sol é a casa do poema.
Por entre as esperanças nos perdemos.
A esperança é um feno do meu campestre de outrora, duma seara crescida, duma savana dourada na África doida de mistérios.
Ai, como gosto de semear mistérios!
Lavro os silêncios pelas horas impróprias e sobre os silêncios estendo um manto.
É o convite para um sono ocasional ou para fazer de sono no átrio dos sonhos onde germinam os mistérios.
Andemos.
Andando encontramos árvores eufóricas.
Dormem de pé.
E crescem enquanto dormem.
Ou será que dormem enquanto crescem?
Tu poderias investigar por entre as palavras abundantes e sábias que explicam até os mistérios da nocturna aragem africana.
Eu?...Espreito a raiz da loucura...
Ali no tapete da relva brava onde se escondem os miosótis.
A tarde cresce e a noite vem.
Depois do silêncio é um coaxar de amores e desamores, de ternuras e ofensas, de intenções e frustrações.
O mundo é das rãs e do pio manso das corujas.
A noite cresce pelo pântano como se África desaguasse aqui tão perto.
Ficam-me, num escaninho guardadas, as violetas brancas...

INDESTINO

Deixo para ti uma tulipa jovem sob um manto...
Deve ser branco, o manto, para que a tulipa
Possa ter a importância duma ressurreição imprevista.

Ao arrepio das horas e das árvores que juntas me cercam
Logo te direi um néctar divino cor de âmbar...
Depois, poderemos ir, numa peregrinação indestina,
Até à morada dum alvorecer...

ALCINO AMIGO

ALCINO AMIGO,

Essa não! Essa da reforma è para enganar meninos e a mim não me engrolas tu. A reforma é quando já não cresce nada e vem depois do tempo maduro. Reforma é a saída, o abandono depois da pequice. Eu não vou nessa. Então tu, com esse ar de puto, com essas ganas de bébé chorão já queres ir embora? Ainda há pouco tempo te cresceu o bigode, ainda não aprendeste aquelas palavras aprumadas das pessoas de bem e já te queres safar? E depois quem nos conta histórias do, campismo com estrépitos nocturnos e humaníssimas manifestações? E aquela das ceroulas na revolução?
Aqui há grande patifaria!
Ainda há pouco armaste um estenderete monumental com aqueles palhaços pintados vivos pela mão dos alunos pouco mais pequenos dos que tu, e agora queres dizer adeus à festa?
Pintaste a manta com a canalha e agora queres ir pintar para outro lado?
Tu até podes ir porque estamos num país livre e democrático, mas não convences ninguém. E não venhas com tretas de arrumar as botas, calçar pantufas, reformar o pincel. Nada disso pega.
Essa do pincel é que é definitiva e verdadeiramente importante:nunca deves reformar o pincel. É preciso te-lo atento , arteiro! Molhá-lo bem nas tintas várias e soltá-lo na tela, danado e tonto como tu sabes. Se for para dar ao pincel a gente ainda pode condescender. Mas não digas que vais daqui.
Tu aqui , caro Alcino, nesta Escola de Monserrate . tens obrigações, vínculos , compromissos. Lembra-te que já foste Director. Verdade que não tinhas grande pinta de chefão, e a malta olhava-te intrigada, tanto mais que nessa altura pintavas, desarvoradamente, Alentejos tristes. (Ai se os gajos soubessem que tu andavas a dar ao pincel pelo Alentejo! ) . . . Lá s ia a directoria!
Deixemos a História do tempo velho porque tu entraste na dança com a grândola ao peito, em ritmo de bossa nova. De princípio ainda desafinavas com a partitura embrulhada, como estava. Desafinávamos todos. Depois foi um regalo ver-te nas tintas e ouvir-te nas prosas. Até deixaste em paz os burros do Alentejo parados na paisagem parda. Vieste para o Minho e caçaste a alegria dos gaiteiros nas dança das romarias. Tanto, tanto que entraste no cartaz da Senhora da Agonia. . Parece que entramos todos contigo naquele jeito desconcertante que tu sabes por nos momentos sisudos e solenes.
Já pintaste vilancetes de Camões, já temperaste gastronomias em congresso, já pintaste searas, gaiteiros e burros, qualquer dia pintas um discurso de estado. . .
Nah! . . . Tu vais armar alguma! Tens alguma vermelhinha ensaiada!
Essa do penante recente é indecente…Traz água no bico. . . não queres é que te ponham a careca ao leu! A tua retirada é estratégica.
Andas por aí a dizer que te reformaste e isso nem te fica bem. Um puto gaiato como tu não tem direito a essas reformas. Se te pões aí nos cantos, a ver passar os comboios ainda pregam alguma tapona e te metem outra vez na escola primária para aprenderes o traço certo do desenho, a ortografia, a rima e as coisas atinadas da instrução. Põe-te a pau com esses gajos da reforma do sistema educativo! !
E olha Alcino amigo, conta sempre e sempre com a malta absolutamente amiga, da Escola de Monserrate.

SAUDADES DO FUTURO

A natureza não sabe o que é natal…
A natureza não tem calendários nem deuses a representar
Esta farsa de nascer no frio de Dezembro
Ao bafo duma vaca
Ou ao espirro dum burro…

Quando eu era menino (será que já fugi de ser menino?)
Ensinaram-me que a vaca tinha aromas de leite
E o burro só dava coices de maldade
Daí que eu nunca tenha gostado de burros.
Ou burras, tanto faz. Nenhum deles faz o meu deleite
Eu gosto tanto muito é da natureza e da sua eternidade,

O que mais me dói é de ter saudades dos netos dos meus netos…

À ESPERA DE ONTEM

Escondo no vento os meus tesouros
Porque é no vento que escrevo o meu destino.

E há um silêncio leve
E há um azul cansado do eterno infinito…

Como é belo e deserto o meu caminho!

OUVER DE INFÂNCIA

LIÇÂO PARA A MINISTRA

Gosto de entrar na noite para ver melhor o escuro que me cerca.
É que eu já não entendo nada disto que corre pelos nossos dias…
Ouço uma ministra dizer que os professores titulares, mais experientes que são, não precisam de preparar aulas…
Minha senhora ministra o que é educar?
Lembro-lhe o velho Sócrates, o outro, o sábio, não o seu. Ele, sábio, dizia, “sei apenas que nada sei”.
Eu quero dizer-lhe daqui, voz muda no encosto com a Galiza que, seguindo Sócrates, o sábio, há dois tipos de ignorância: “a ignorância simples que consiste em se ter consciência do desconhecimento da natureza das coisas”. É uma ignorância muito válida mobiliza à aprendizagem, à descoberta do desconhecido... E a “ignorância dupla que consiste em não se ter consciência do desconhecimento da natureza das coisas.” Esta sim; é uma ignorância perniciosa porque dispensa a necessidade de aprender porque inibe a preocupação da descoberta. É a ignorância dos presunçosos, do sabichão, do mandador intrépido e tonto às ordens dum chefe.
A senhora ministra não é humilde e sofre da doença da ignorância dupla. Faz tudo para agradar ao chefe…
Esta é a cultura política em Portugal!
Questionar, educar para o questionamento, para o esforço, para o trabalho não dá sucesso. Não segura um ministro no seu poleiro ministerial.
É preciso ser obediente, adulador, engraxador, ou como dizem os nossos irmãos de linguagem verbal que moram no Brasil, é preciso ser puxa saco.
Então o professor faz o quê? Não tem que ser o estimulador para que o aprendente se municie de ferramentas de sobrevivência (que mal constam no seu cardápio de dezena e meia de disciplinas!!!!) E não é verdade que este trabalho de municiar para ferramentais é para durar vida fora?
Não tem o professor que incitar o aprendente a ser cidadão responsável na sua estrutura social numa dinâmica de vanguarda?
E tudo isto não precisa de preparação?
Saberá a senhora ministra, habituada que está a obedecer e a criar obediências, que, para entrarmos na diferenciação dicotómica, muito do agrado da senhora ministra, haverá só há dois tipos de educação: a educação produtora e a educação reprodutora…
É por demais evidente que a senhora ministra quer reproduzir… quer professores reprodutores… A senhora Ministra tem medo do futuro. E tem razões para tanto. É que a senhora parece mais do sec. XIX ( mas cuidado com as conferências do casino…) do que deste novo milénio….
Apetece-me produzir aqui as palavras atribuídas a Cristo no momento em que se executava a romana sentença: “pai perdoai-lhe porque ela não sabe o que faz”…..

À ESPERA DO IMPOSSÍVEL

Gosto de cultivar as memórias num campo azul
Mas num azul menos inquieto que o mar
E menos profundo que o azul dum Maio florido.


Escrevo uma memória que ainda só germina
Muito suavemente, ao som duma ocarina,
Envolta e debruada num mágico tecido
Que, se eu não fora ateu, dava um altar.
Mas o que é bom e salutar
É nunca sabermos nada de destinos...

Porque não é pelos destinos que abrimos as memórias.
O que sabemos e sofremos são fúrias de surpresas
São fascínios sem rumo e sem histórias
São encantos, são um pico de estranhezas...

Depois, é um devaneio, um canto e uma espera
Até que chegue a Primavera
Ou uma estrela cadente me dê ao sol
A cor azul

sábado, 9 de maio de 2009

ACEDER AO TEXTO

ACEDER AO TEXTO


Perante um qualquer texto, seja ele de natureza poética, pictórica ou melódica, pode o leitor-observador ter atitudes muito diferentes e todas elas de reconhecido mérito, sempre exigentes, mas de complexidade variável.
Olhar um texto, entrar dentro dum texto, compreender um texto, fruir um texto pode fazer-se por portas e janelas de natureza diversa…
Um texto é sempre um tecido. E há uma única condição prévia que se exige ao leitor-observador: uma atitude edonística, uma busca obsessiva do prazer.

Sejamos explícitos:

1- Resumo-Expansão- O Resumo ou a Expansão têm a mesma natureza na sua essência, embora apresentem resultados opostos.
Haverá sempre obrigatoriedade de decompor o texto em partes, mostrar como elas se articulam, qual a sua lógica sequencial e formal e partir depois para um desempenho de condensação ou de expansão. Fazemos notar que sempre se respeita a estrutura, a ordem, a lógica, e a substância textual.
Nem o resumo, nem a expansão se podem desviar dos conteúdos prévios insertos no texto do autor.
Este não é um exercício menor, mas é um tratamento iniciático à plenitude do acesso textual…

2- O Comentário - O comentário é libertário. Deixa que se olhe o texto segundo critérios indefiníveis e não reguláveis. Comenta-se o texto palpitando sobre gostos ou técnicas, sobre teorias ou sabores, sobre afectos ou aversões.
O comentário não tem vinculação teórica, é uma viagem ao sabor do deleite que pode ter passeios de indiferença ou acidentes de aversão.
O comentário não precisa de distinguir forma e conteúdo. É diletante.
O comentário pode viajar pelo texto no tempo da maré, como na majestade do mar encapelado. Comentar é o trato que se dá ao texto, muitas vezes com o nome de análise. Tal não é correcto porque não é verdade. O comentário é nocional, é emocional, é ideológico. A análise é técnica é rigorosa é científica,

3- A Análise – A análise dum texto é sempre conceptual; é por isso que ela é técnica, rigorosa e científica.
Não pode haver análise textual sem a prévia selecção do analisador.
Analisar um texto, particularmente um texto poético, nunca é uma prática absoluta e definitiva; é sempre inesgotável porque sempre depende do analisador a que sujeitamos o texto na leitura que dele possamos fazer.

Imaginemos quantas análises já fora feitas do soneto de Camões “ Alma minha gentil que te partiste”… ou mesmo do “ Manifesto Anti-Dantas” ou da Cena do ódio de Almada Negeiros, ou “ Cântico Negro” de José Régio, ou nas infinitas leituras de Bocage que sempre chegou aos analfabetos mais recuados. Pior, ou melhor será pensar na complexidade heteronímica da obra de Pessoa, onde tudo é “ pensado com o sentimento”...(ou será que tudo é “sentido com o pensamento”?).
O texto poético é tão enorme como o universo porque ele só pára depois do fim dos tempos.
Falando de texto, falamos de teia. E quem diz teia deve pressupor que da teia se faz tecido. Um texto em linguagem verbal pode ser analisado segundo várias coordenadas, Qualquer texto pode ser analisado do ponto de vista fonético, morfológico, sintáctico e semântico. Podem depois combinar-se e cruzar-se todas e quaisquer destas componentes para constituírem factor de análise.
Esta hipóteses de cruzamento de combinatórias analíticas conduzem-nos a uma multiplicidade de resultados imprevisíveis porque sempre intervêm na abordagem textual valores subjectivos que não são quantificáveis nem diferenciáveis…
Não podemos esquecer que o texto é, em si mesmo, um produtor autónomo de significâncias cuja dimensão, natureza e entorno é sempre variável de sujeito-leitor a sujeito-leitor. E, no mesmo sujeito-leitor, varia nas diversas circunstâncias, porque cada circunstância é sustentada por analogias, afinidades, discrepâncias, afectos , amores e ódios: e tudo interfere em tudo…
3.1 - O texto de explicitude é o texto mínimo, sumário na informação, esquelético na forma e sem adereços. É uma informação de rigor, precisa, unidireccional, informativa, não dialogística.
Mesmo o texto jurídico, que se quer unívoco, é fonte, ou causa, de inúmeros conflitos interpretativos.
Caso limite de texto que deve ser unívoco, para que se cumpra, com todo o rigor a vontade do de cujus, é o testamento. Pois mesmo neste caso temos os tribunais, com magistrados e advogados, a buscar cada um o entendimento da sua conveniência. E isto no acesso a um texto que, pela natural operacionalidade, deve ser de óbvia univocidade… Mesmo este texto se deixa penetrar de interpretações…
3.2 – O texto poético
A poesia é um estado mental.
A poesia faz-se poema tomando substâncias.
As substâncias com que se faz a forma do poema são três. E assim, conforme as substâncias, o poema se conforma, se transforma se abre ou se descobre…
Que o poema tem um corpo. Um corpo material, urdido e tecido na imprevista forma, composto nos fios da teia verbal que gera infinitudes de leituras racionais ou de inefáveis prazeres.
Sempre os sentidos se perturbam na aproximação ao texto poético. O leitor entra, procura entendimentos e, ora se arrepia de confusões, ora se deleita no devaneio inconsistente e inefável.
Nunca nos definimos de comportamentos perante o poema. O poema inebria, e enquanto inebria tanto provoca o desatinado chora como nos transporta para a irrealidade incontrolável dum cosmos que só pode desaguar numa madrugada de muitas primaveras.
Mas voltemos ao corpo do poema, porque é sempre no corpo que encontramos a expressão sensual. Entremos no corpo do poema como num templo. Deixemos também que o poema entre para dentro de nós. Ao contrário dos costumes....
O corpo do poema atrai, encanta, seduz…por ser melopeia porque é feito de músicas, de sonoridades, de ritmos, de batucagens que traçam o corpo vivo do poema. Então, o poema embala e entretém.
É o poema bom de dizer e o melhor para cantar.
O significante do poema é uma litania, um marulhar silábico, um cantarolar fonético…
Agora o corpo é já um jogo fánico, uma mescla holística de linguagens (des)organizado por símbolos que presidem ao excurso alegorético e donde fugiu todo o entendimento prosaico e literal. Nesta fanopeia estamos como na rosa dos ventos donde se abrem todos os nortes mas onde se perdem os sentidos.
Tudo é diverso e ocasional.
Tudo é circunstância e oportunidade.
É aqui que o poema produz e oferece todas as polessemias. É agora que o poema toca a definitiva e intangível intemporalidade.
Mas o poema veste-se de palavras. E as palavras têm marcas familiares, origens e estirpes, maternidades ou paternidades, famílias bem compostas ou analogias de muitas circunstâncias.
Há palavras elegantes e certeiras que viajaram de iate até ao destino e outras, muitas, palavras marinheiras e travessas, colhidas na acostagem dum porto ocasional perdido nos mistérios de todas as Áfricas…
Todavia, todas as palavras carregam sentidos prévios, e nas muitas significâncias nos enredamos, e nesta logopeia nos encobrimos e nos descobrimos no corpo do poema.

Mas procuremos os poema. Procuraremos os poemas. Por mim quero ficar refém do poema…
JCR

sábado, 2 de maio de 2009